Piedade Cristã Segundo Calvino

CURSO PLENO EM TEOLOGIA

ARTIGO: PIEDADE CRISTÃ SEGUNDO CALVINO

Aluno: Anthony Williams Silva da Cruz

 

Introdução

 

            É frequente as discussões e questionamentos no que tange o Calvinismo, há muitas arguições inconvenientes desprovidas de argumentação bíblica e até mesmo histórica. Pode-se citar por exemplo que o calvinismo propaga em sua defesa da predestinação um esfriamento espiritual, que traduzindo em miúdos significa dizer, que o cristão não precisa buscar ter uma vida piedosa.

            Em face ao argumento exposto, veremos que esta afirmação tão difundida no meio Cristão é desprovida de fundamento e que no tocante a história da reforma protestante é no mínimo duvidosa, senão desonesta.

 

            João Calvino ganhou notoriedade defendendo e ensinando a doutrina da predestinação com notável paixão e temor, provando claramente a sua contribuição nas mais variadas camadas da sociedade com sua teologia reformada, ele baseou-se nas escrituras, deixando evidente que não seria ele quem a inventara. As epístolas paulinas servem de base para expor de maneira mais clara que o Apóstolo ensina sobre a Eleição, vê-se também as doutrinas da graça presentes nas Escrituras sagradas desde Gênesis a Apocalipse, onde qualquer pessoa que está em Cristo ao propor-se a estudar seriamente estas escrituras, não poderia negar essas doutrinas. Porém elas não nos levam a uma vida indiferente e fria espiritualmente, pelo contrário, os remidos e chamados por Deus passariam a viver conforme a orientação do Apóstolo Paulo: “Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente”. Tito 2.12

 

            Para um melhor esclarecimento acerca dos fatos, iremos abordar o pensamento panorâmico de Calvino acerca da piedade cristã, logo após os cinco pontos do calvinismo e o que elas implicam na prática na vida do cristão. Sendo assim confirmaremos que a teologia do cristianismo no calvinismo está fundamentada nos Escrituras sagradas e não na justiça humana.

 

A vida Cristã de Calvino

 

            Calvino não tinha outra arma senão a Bíblia… Ele pregava a Bíblia todos os dias, e, sob o poder desta pregação, a cidade começou a ser transformada. Conforme o povo de Genebra adquiria conhecimento da Palavra de Deus e era transformado por ela, a cidade tornou-se, como John Knox chamou-a mais tarde, uma Nova Jerusalém, de onde o evangelho espalhou-se para o resto da Europa, para a Inglaterra, e para o Novo Mundo.1

— James Montgomery Boice

 

            Calvino é conhecido como “um dos grandes homens de todos os tempos”, sendo expressivo influenciador da formação igreja e da cultura ocidental de tal maneira como nenhum outro teólogo ou pastor conseguiu fazer. Sua habilidade em expor as escrituras possuía as características doutrinárias da reforma protestante, isso o fez tornar-se o principal arquiteto da causa protestante. A história da Europa durante o século dezesseis não foi a mesma, suas ideias valiosíssimas ajudaram a esculpir os princípios fundamentais da civilização ocidental, originando a forma republicana de governo, aos ideais de educação pública e à filosofia do capitalismo com mercado livre.3

            Como pastor serviu fielmente por vinte e cinco anos, arrebanhando em Genebra, na Suíça. Diferente da maioria dos pastores, Calvino possuía responsabilidades a mais do que a maioria deles. J. H. Merle D’Aubigné, estudioso da Reforma, escreveu:

 

Aos domingos, [Calvino] liderava o culto e também realizava cultos diários em semanas alternadas. Ele dedicava três horas por semana ao ensino de teologia; visitava os doentes e administrava exortação individual. Hospedava pessoas; nas quintas, comparecia ao Consistório para dirigir as deliberações; nas sextas, estava presente na conferência bíblica que era chamada de congregação. Durante essas conferências, depois que o ministro responsável apresentava suas considerações sobre determinada passagem das Escrituras, e após os comentários dos demais pastores, Calvino adicionava suas observações, as quais se assemelhavam a uma preleção. Na semana em que ele não pregava, preenchia o tempo com ocupações de todo tipo. Particularmente, ele dava muita atenção aos refugiados que afluíam para Genebra devido à perseguição que ocorria na França e na Itália. Ele ensinava, exortava e consolava, por meio de cartas, “aqueles que estavam nas garras do leão”, além de interceder por eles. Em seus estudos, elucidou escritos sagrados através de admiráveis comentários, e refutou os escritos dos inimigos do evangelho.2

 

            Das suas várias obrigações pastorais, Calvino destacava-se principalmente como pregador, ele via o púlpito como sua responsabilidade mais importante, sendo este o principal foco do seu chamado pastoral, tornando a pregação bíblica o seu compromisso vitalício.

            Sua profundidade bíblica o torna até os dias de hoje o ministro do evangelho mais influente que o mundo já viu, possuindo um discernimento exegético do antigo e novo testamento notável, com exceção de apocalipse.

            Calvino encarou a morte da mesma maneira que encarou o púlpito, conforme ditado por ele em seu último desejo e testamento em 25 de abril de 1564:

 

Em nome de Deus, eu, João Calvino, servo da Palavra de Deus na igreja de Genebra… Agradeço a Deus não só por Ele ter sido misericordioso comigo, pobre criatura sua, e… por ter me tolerado em todos os pecados e fraquezas, mas principalmente por ter feito de mim um participante de sua graça a fim de servi-Lo por meio de meu trabalho… Confesso ter vivido e confesso que morrerei nesta fé que Ele me deu, porquanto não possuo outra esperança ou refúgio além de sua predestinação sobre a qual toda a minha salvação está baseada. Recebo a graça que Ele me ofereceu em nosso Senhor Jesus Cristo e aceito os méritos de seu sofrimento e morte, por meio dos quais todos os meus pecados estão enterrados. Humildemente suplico que Ele me lave e limpe com o sangue de nosso grande Redentor… a fim de que ao aparecer diante dele seja semelhante a Ele. Além do mais, declaro que me esforcei para ensinar sua Palavra de maneira imaculada, e para expor fielmente as Sagradas Escrituras, de acordo com a medida da graça que Ele me deu.3

 

            No ano de 1564 Calvino morreu nos braços do seu sucessor Theodore Beza.

 

Os Escritos de Calvino sobre a Piedade Cristã

 

            Ao lermos os escritos de Calvino, percebemos nele uma vida de santidade ao qual este tomava por base de sua Teologia as Escrituras Sagradas, sua Teologia era extremamente bíblica. Se examinarmos seus notáveis comentários bíblicos perceberemos um toque de fervor e amor ardente pelas coisas divinas, Calvino deixa claro nos escritos de seu ensino, que a espiritualidade deve ser pautada numa vida dedicada a Deus e seu reino. Torna-se perceptível também sua ênfase nas disciplinas espirituais, e o quanto eram importantes em sua teologia bem como em seus comentários bíblicos, são suas Institutas dedicadas de maneira prática na vida diária da Igreja.

 

            A Piedade Cristã para Calvino está embasada no conhecimento de Deus:

 

“A piedade está sempre fundamentada no conhecimento do verdadeiro Deus; e isso requer ensino”.4

 

            Calvino entendia que para se ter uma correta vida piedosa era necessário tomar por base o correto conhecimento da verdade bíblica. De acordo com Tito 1.1: “Paulo, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade”.

 

            Nosso conhecimento exaustivo e completo da verdade materializa a nossa salvação. Este conhecimento verdadeiro de Deus deve ser cheio de piedade. Para ele a piedade gera no homem as atitudes corretas para com Deus: temor, reverencia, adoração e obediência.

            Vejamos suas palavras:

 

…deve observar-se que somos convidados ao conhecimento de Deus, não àquele que, contente com vã especulação, simplesmente voluteia no cérebro, mas àquele que, se é de nós retamente percebido e finca pé no coração, haverá de ser sólido e frutuoso.5

…Jamais o poderá alguém conhecer devidamente que não apreenda ao mesmo tempo a santificação do Espírito. (…) A fé consiste no conhecimento de Cristo. E Cristo não pode ser conhecido senão em conjunção com a santificação do seu Espírito. Segue-se, consequentemente, que de modo nenhum a fé se deve separar do afeto piedoso.6

 

            Ainda na análise do comentário da Epístola de Tito 1.1, Calvino nos fala:

 

A frase, que é segundo a piedade, qualifica a verdade de uma forma especifica, da qual ele esteve falando, e ao seu tempo recomenda sua doutrina a partir de seu fruto e propósito, visto que seu alvo único é promover o culto divino correto, e manter a religião genuína entre os homens. E assim ele livra sua doutrina de toda e qualquer suspeita de vã curiosidade, como ele fez diante de Félix (Atos 24.10) e igualmente diante de Agripa (Atos 26.1). Visto que todos os questionamentos supérfluos que não se inclinam para edificação devem ser com toda razão suspeitos e mesmo detestados pelos cristãos piedosos, a única recomendação legitima da doutrina é que ela nos instrui na reverência e no temor de Deus. E assim aprendemos que o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus.7

 

O Calvinismo e suas implicações práticas

 

            Do ponto de vista do progresso e declínio de nossa geração, observamos de maneira clara que a única interpretação biblicamente coerente é a depravação total: Assassinatos, violência, corrupção, desmoronamento dos valores da família, apostasia das verdades bíblicas, culto à personalidade, a secularização do culto, o antropocentrismo. Em Romanos 1.28-32 a palavra de Deus expressa claramente a condição do homem caído.

 

            Também podemos observar através de Romanos 3.11-18 que o homem se encontra completamente afastado de Deus, estando destituído da glória, não entendendo as coisas divinas e não buscando a Deus.

 

            Tal condição pecaminosa é a explicação para a depravação que engloba a sociedade, os tenebrosos pecados que as pessoas têm que encarar diariamente por meios de comunicação massivos, a libertinagem e o não cumprimento aos mandamentos de Deus sobre a vida, matrimônio, sexo, finanças, cultura e artes.

 

            Em contrapartida há um Deus que escolheu seu povo, para serem imagem e semelhança de Jesus o Cristo (seu filho), sendo o sal da terra e a luz do mundo. Povo chamado para ser e fazer a diferença, glorificando a Deus pregando e vivendo a sua palavra. O princípio da ética das escrituras é angariar conforto e equilíbrio a vida social. Uma nação que viola esses princípios éticos da palavra de Deus torna-se uma verdadeira ruína, e um sistema educacional que não cita a bíblia como fonte benéfica e que entroniza o homem, certamente levará essa mesma sociedade a uma destruição espiritual e moral. Outra doutrina a ser citada como importantíssima para o povo de Deus e para os que são agraciados de maneira paralela pelo evangelho de Cristo é a perseverança dos santos. A vida exemplar destes santos os conduzirá a um modelo de trabalho, santificação, vida comum, familiar e espiritual. Perseverarão na busca pela justiça, da vida dedicada e piedosa, sendo estas consequências éticas nítidas pela presença da igreja. A expiação limitada nos conduzirá individualmente a compreender o amor de Deus por seu povo, demonstrando seu cuidado e zelo para com os seus.

 

Conclusão

 

            Quando estudamos o pensamento de Calvino acerca da piedade cristã, nos é revelado a importância que ele como reformador oferecia a vida aplicada ao cristianismo bíblico. Quando alguém afirma que Calvino não valoriza a prática da piedade cristã, não está se baseando no que ele ensina. Por isso é necessário que qualquer um que queira entender o comprometimento da doutrina reformada no tocante a sã doutrina e a vida santa, realize um estudo aprofundado sobre a reforma e suas extensões.

 

Notas

  1. Boice, James M. O evangelho da graça: a aventura de restaurar a vitalidade da Igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo, SP: Cultura Cristã,

1999.

  1. D’Aubigné, J. H. Merle. History of the Reformation in Europe in the time of Calvin, vol. VII. Harrisonburg, VA: Sprinkle Publications, 1880, 2000. p. 82.
  2. Beza, Theodore. The life of John Calvin. Edinburgh, Scotland: Calvin Translation Society, 1844. Reimpresso por Back Home Industries, 1996. p. 99-103.
  3. Comentário de Daniel, João Calvino. Ed. Fiel
  4. As Institutas da Religião Cristã, João Calvino – I 5.9.
  5. As Institutas da Religião Cristã, João Calvino – III. 2.8.
  6. As Pastorais, João Calvino, Comentário da epístola de Tito.

 

Bibliografia

  1. Steven J. Lawson. A arte Expositiva de João Calvino. São Paulo, SP: Editora Fiel, 2008.
  2. João Calvino. A instituição da religião cristã. São Paulo, SP: Editora Unesp, 2007.
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