O Homem – Uma pessoa total criada por Deus

O HOMEM:  UMA PESSOA TOTAL CRIADA POR DEUS

Anthony Williams Silva da Cruz

Resumo: Em Gênesis encontramos uma passagem que mostra implicitamente uma suposta conferência que houve entre os membros da Trindade, onde estes concordam em criar o homem “a sua imagem e semelhança” (1.26). De forma antagônica a esta teoria, surge a teoria da evolução, que diz que o homem surgiu da não-vida, e que este é fruto de mutações oriundas de espécies inferiores. Podemos constatar na bíblia que Deus criou o homem através de um ato direto e que este é uma pessoa total. O presente artigo esboça a criação do homem numa ótica bíblica listando passagens nas escrituras que mostram que o homem foi criado por uma ação direta e consciente de Deus para ser uma pessoa total. Abordarei no artigo algumas passagens no Antigo e no Novo Testamento, algumas visões históricas e também das Seitas. Após esta análise será esboçado uma explanação bíblica em favor da visão do homem como pessoa total.

Palavras-chave: Homem; Pessoa; Criado.

INTRODUÇÃO

            De acordo com a tradição cristã, partindo sobretudo dos relatos bíblicos da criação contidos no livro de Gênesis, é possível observar uma ênfase sobre a humanidade, onde esta representa o ápice da criação de Deus, tendo, assim, uma posição mais elevada em relação aos animais. A justificativa Teológica para essa premissa, toma por base, em sua maioria, a doutrina de que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gn 1.27).1

            Entender as questões da concepção humana e de sua formação ajuda-nos a compreender quais as implicações que há sobre o homem no tocante a sua criação. Entender que o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus, nos mostra que o homem não é fruto de um processo evolutivo aleatório, mas sim de uma ação direta e consciente de Deus, que operou esta criação de maneira proposital. Deus intencionou criar o homem, e isso não ocorreu sem razão. Entre toda a criação, apenas o homem é capaz de relacionar-se pessoalmente com o Criador e de reagir a Ele.

            Ao agir criando as coisas anteriores, Deus o fez ordenando que elas viessem à existência. Um exemplo disso é a ordem que Deus dá em Gênesis 1.3, onde Ele diz, “Haja Luz”, e posteriormente no versículo 11 ele diz, “Cubra-se a terra de vegetação”. Já o homem, no tocante a sua criação, observa-se uma suposta conferência entre os membros da trindade, onde estes concordam em criar o homem a imagem de Deus: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” (1.26). Em Gênesis 2.7,21-22, a criação do homem é explanada claramente, onde, vê-se que o homem não foi formado de algum material pré-existente oriundo de algum animal que já havia sido criado por Deus, mas sim, que Deus pegou diretamente o “pó da terra” e também diretamente “soprou em suas narinas o fôlego de vida”, ficando claro que o homem não é oriundo de alguma evolução biológica, mas, que este é criado por um ato direto de Deus, conforme exposto no trecho bíblico citado anteriormente.

            Em objeção a posição bíblica de Gênesis, no que diz respeito a criação do homem, destaca-se contemporaneamente a teoria da evolução, teoria esta que gera muitas controvérsias, conforme menciona muito bem sobre este tema o teólogo Gerard Van Groningen:

“Na celebração do centésimo aniversário da Origem das Espécies de Charles Darwin, organizada pela Universidade de Chicago, Darwin foi aclamado como o “Newton da biologia”. Os argumentos em favor de uma origem naturalista da vida, e a evolução natural da humanidade foram fortemente afirmados nos trabalhos apresentados naquela celebração. Foram feitas, no entanto, concessões com respeito à incerteza de certos aspectos da evolução, e da existência de “imensas lacunas em nosso conhecimento” da evolução do genus Homo. Theodosius Dobzhansky admitiu que, até certo ponto, justifica-se dizer que não houve nenhum aumento sensível na capacidade mental nos últimos 50 até 1.000 anos. Ele acrescentou que não é possível reproduzir em laboratório as mudanças que aconteceram. As conclusões só podem ser baseadas em inferências. E estas inferências podem ser deduzidas somente pela observação do cosmos, suas várias partes, e alguns fósseis e remanescentes de culturas de tempos passados. Sete suposições básicas são defendidas pelos seguidores da evolução de acordo com G. A. Kerkut. Seis delas não foram mencionadas durante as discussões sobre evolução. A aceitação dele da teoria da evolução é muito mais reservada que foi aquela aceita e postulada pelos cientistas da celebração de Chicago.

            O trabalho realizado por cientistas tem criado tensões dentro da comunidade cristã. Existem esforços na comunidade Reformada de se manter uma crença na criação enquanto aceitando a teoria da evolução como a resposta plausível à questão de como a humanidade veio à existência. Jan Lever declarou entender que Abraham Kuyper tinha admitido a compatibilidade entre considerar uma evolução geral da matéria sem vida até o homem, guiada por Deus e iniciada com uma criação, juntamente com a confissão cristã. Lever declarou expressamente que pretendeu, com seu livro, declarar mais positivamente a possibilidade desta compatibilidade.” Lever tem recebido apoio geral de cientistas como Davis Young, Clarence Menninga e Howard J. Van Till.

            Outros vêm assumindo fortes posições contra a aceitação da evolução como meio usado por Deus para trazer a humanidade à existência. Aalders é um exemplo. A. E. Wilder-Smith produziu uma pesquisa criticados princípios da evolução e do Cristianismo e concluiu que eles são incompatíveis. As visões de Wilder-Smith estão em concordância com a dos escritores conhecidos como cientistas criacionistas.

          O exegeta bíblico e teólogo tem o dever de considerar o que os estudiosos que enfocam a revelação geral de Deus na criação têm a oferecer. Estes estudiosos, no entanto, nos apresentam um cenário confuso. Pelo menos quatro escolas de ideias diferentes estão incluídas aqui. A escola evolucionista naturalista, representada por cientistas como Dobzhansky, foi clara e corajosamente apresentada recentemente, de uma maneira científica popular, na edição centenária da National Geographic. A escola evolucionista teísta sustenta que Deus fez o cosmos vir a ser e, então, usou um desenvolvimento evolucionário por meio de um período de milhões de anos, durante o qual o Homosapiens teve seus estágios iniciais de existência. Lever, Davis, Menninga e Van Till representam esta escola. A escola criacionista progressiva enfatiza a criação de várias formas de vida, mas também considera que longos períodos de desenvolvimento progressivo ocorreram entre estes atos de criação. Pattle Pun apoia essa corrente. Variações de ênfase são comuns entre estudiosos desta escola. A escola criacionista, que representa estudiosos como Aalders e E. J. Young, enfatiza as atividades criadoras de Deus reveladas nas Escrituras, mas dá pouca atenção ao que os estudiosos têm escrito no campo científico. Os cientistas criacionistas, que devem também ser incluídos nessa escola, dão bastante consideração ao trabalho dos cientistas, mas usam vários dados científicos para sustentar uma posição criacionista rigorosa. Ao estudar e se avaliar as posições dos adeptos das três últimas escolas, ainda que de maneira geral, um exegeta bíblico e teólogo pode encontrar material em cada um que deve ser considerado seriamente. Será que estas escolas são tão mutuamente contraditórias como alegam os adeptos, especialmente das escolas 2 e 4? Não é nossa intenção dizer aqui e agora qual escola está correta” (Groningen, 2002, p. 72-74).

            Conforme visto anteriormente na citação, observa-se que há uma tentativa de negar a criação direta do homem por Deus, propondo inclusive que a vida se originou de uma não-vida, sendo o homem um resultado de mutações oriundas de espécies inferiores. Nessa teoria de evolucionismo, surge Charles Darwin como grande expoente, onde, em sua teoria, ele diz que os ambientes “selecionam” os organismos mais adequados para habitar determinado lugar, o que ele denominou como “Seleção Natural”. Darwin diz que as espécies que exibirem mais aptidão em sobreviver a certos ambientes, se multiplicam, evoluem e seus descendentes serão os dominadores daquela região. Os organismos que não forem capazes de se adaptar ao meio ambiente em que estão inseridos, serão extintos. Em suas conclusões Darwin diz que sempre houveram variações entre as espécies que propiciaram maior facilidade de sobrevivência em comparação às outras. Estes fatores auxiliam na propagação desses organismos mais adaptados, eliminando os mais fracos.

            Em contraposição ao pensamento evolucionista, Gênesis faz uma distinção muito clara entre o homem e os animais. A bíblia descreve o homem como pecador e ser pensante, e que com frequência pensa incorretamente, porém algumas vezes pensa corretamente. Deus fez o homem a sua imagem e semelhança para que o homem pudesse glorifica-lo (Is 43.7), e o fato de o homem conhecer este único Deus verdadeiro, é o que o torna capaz de obter a vida eterna, e isso envolve exercício mental ou uso da razão. Sem a razão não há como haver nenhuma moralidade ou justiça, pois essas coisas requerem pensamento. Sem essas características, os animais não podem ser justos, nem pecadores, o que mostra que o homem não foi feito de algum material vindo dos animais já existentes.

            Dentro da temática da criação do homem, surge um outro debate, que é a respeito da constituição humana, onde surgem três posicionamentos: o primeiro é o Tricotomismo, que defende que o homem é formado por três elementos; o segundo é o Dicotomismo, que defende que o homem é formado por dois elementos; e o terceiro, a Pessoa Total, que defende o ponto de vista de que o homem é uma totalidade, ou como diria o teólogo Anthony Hoekema, o homem como uma unidade psicossomática.

            Passagens do Antigo Testamento juntamente com outras do Novo Testamento fornecem bastante base para os Dicotomistas e suas argumentações, e provavelmente foi a concepção mais propagada na maior parte do pensamento cristão; Os mais conservadores defendem a posição Tricotomista, que é bem popular entre eles, onde o terceiro elemento que surge é o espírito, e esse elemento permite aos homens notar questões espirituais e reagir aos estímulos espirituais. Esse posicionamento depende da metafísica grega antiga, e toma por base os escritos paulinos, onde temos basicamente o texto de 1 Tessalonicenses 5.23: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. A Unidade Psicossomática enxerga que o homem é uma totalidade, mas reconhece que o homem possui dois lados (o físico e o não físico) e que pode ser visto de dois ângulos.

  1. ESTUDO BÍBLICO

 

            Segundo o relato da narrativa bíblica de Gênesis 1.26,27 o homem foi criado a “imagem” e “semelhança de Deus e somente Ele é capaz dessa atribuição tão tremenda. Tanto o homem como a mulher foram criados por meio de uma ação direta de Deus, sendo o homem o primeiro, formado do pó da terra, e a mulher veio do homem por meio de uma ação especial de Deus que trouxe como resultado a mesma perfeição do ser (Gn 2.7, 21-25).

            Em Gênesis 2.7 vemos o ápice dessa formação do homem, onde, Deus molda o primeiro ser humano através de um material pré-existente, porém, esse material não é oriundo de nenhum ser vivente pré-existente, o que favoreceria o “evolucionismo”, mas, esse material pré-existente é o “pó da terra”, o qual, Deus o tomou diretamente e o moldou dando-lhe formato de homem, e logo após, soprou-lhe o fôlego de vida nas narinas do homem, e este se tornou alma vivente. Este relato nos mostra duas partes que compõem este ser humano: a primeira é a parte material e a segunda é a parte imaterial

            Entre os teólogos há uma grande discussão a respeito da parte imaterial, pois, há uma corrente que defende que essa parte imaterial é composta apenas pela alma ou espírito, já a outra corrente, defende que alma e espírito são distintas, e que estas são as duas partes que compõe a parte imaterial do homem.

            Já a parte material é formada pelo corpo físico, e este possui menos discussões do que a parte imaterial. As discussões da parte material ocorrem aparecem com mais predominância nas discussões dos evolucionistas.

  • A parte Material do Homem

A bíblia é sem dúvida o relato mais rico em detalhes a respeito da criação do homem. Isso é algo que os evolucionistas não possuem, pois, em suas pesquisas que perduram eras intermináveis, para terminar com nada. Através da origem natural do homem na ótica dos evolucionistas entende-se que a vida humana terminaria conforme começou, ou seja, sem nenhuma fonte confiável, sem destino certo, nem esperança.

            O corpo do homem foi formado inteiramente do “pó da terra”, restando apenas o elemento que daria vida a este ser formado por uma ação direta de Deus. O sopro divino outorgou o Espírito, e esse sopro deu uma vida interminável – não sujeita a morte, ainda que, a morte tenha chegado ao corpo como penalidade pelo pecado. Isso não deve ser confundido com o “dom de Deus que é a vida eterna através de Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 6.23). Esse “dom” de Rm 6.23 é uma comunicação da regeneração e é concedido de maneira livre a todos os que creem para a salvação da alma.

            Podemos encontrar nas santas escrituras três sopros interiores divinos: o primeiro é aquele no qual o homem se tornou uma alma vivente dotada de existência eterna, tanto para o bem ou o mal; o segundo sopro é o que ocorreu nos discípulos do Espírito Santo feito pelo Cristo ressurreto (Jo 20.22); e o terceiro é o sopro da Palavra de Deus, que é a sua inspiração (2 Tm 3.16).

            O corpo dos animais foram criados apenas para serem adaptados às suas atividades comuns aos seres irracionais, e isso defere diretamente do homem, que possui um corpo adaptado à sua participação nas artes, na ciência, na literatura, na mecânica e outras áreas. É visível que o corpo do homem lhe proporciona meios para a sensação, o êxtase e a dor que corresponde ao caráter exaltado da natureza humana, em comparação as exigências menos elevadas da vida animal.

  • A Estrutura do Corpo Humano

O relato bíblico que declara a formação do homem oriunda do pó da terra pode ser confirmada quimicamente. Uma autoridade cientifica atesta que há 16 elementos do solo que estão representados no corpo humano, e enumerados da seguinte maneira: cálcio, carbono, cloro, flúor, hidrogênio, tintura de iodo, ferro, magnésio, manganês, nitrogênio, oxigênio, fosforo, potássio, silicone, sódio, súlfur. Dentre estes, os minerais considerados vitais são cálcio, ferro, potássio, magnésio, sódio, súlfur. Todos esses minerais estão presente organicamente e compõem aproximadamente 6% do corpo; o restante da composição é água, -carbono e gases. Esse relato científico entra em conformidade com o relato bíblico que afirma que o corpo humano é “da terra” (1 Co 15.47-49), e o espírito do homem, é como um tesouro, contido em um “vaso de barro” (2 Co 4.7).

            É de inteira importância o relato bíblico que atesta que o homem retornará ao pó de onde originalmente ele se derivou: “Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás” (Gn 3.19).

Este corpo é tremendamente adaptado aos propósitos e funções do imaterial da tal modo que se torna consciente de qualquer separação entre o corpo e a alma. Todo o êxtase, dor, sensação e capacidade que se expressam em e através do corpo são identificados como a própria pessoa e pertencentes ao próprio ego de um ser humano. O Apóstolo Paulo em um momento de experiência espiritual excepcional, disse de si mesmo o seguinte: “…se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe” (2 Co 12.2).

Por mais que a parte material e imaterial sejam colocadas frequentemente uma como sendo antagônica a outra, e é feito referência a elas como partes que compõem o ser humano, o homem é, não obstante, uma unidade psicossomática – um ser – e o material e o imaterial só poderão ser separados um do outro quando ocorrer a morte física deste indivíduo. A psicologia que diz que o homem é uma totalidade, afirma que a parte imaterial não é o homem, nem o homem é a parte material; mas que ele é o tertium quid (um terceiro elemento oriundo da combinação) dos dois elementos unidos. Existe uma confusão lógica a respeito dessa psicologia pois afirma-se que a morte é o fim da existência do homem tendo em vista que o corpo deixa de funcionar e irá se decompor, e que a parte imaterial do homem, devido ser, supostamente, inseparável, sofrerá o mesmo destino.

Em contrapartida a essa visão, as Escrituras mostram com clareza, que o homem é uma unidade, composta por partes separadas. Isso implica dizer que o senso da unidade é tudo o que o homem experimenta. Quando o homem morre, esses elementos são separados temporariamente, juntando-se novamente em um tempo e modo designados por Deus. Com isso concluo que essas duas partes são separáveis, e que segundo as escrituras serão unidas novamente na ressureição, formando novamente a unidade psicossomática.

Vejamos uma relação entre as duas naturezas; a mente (gr. Psychē) não está situada numa parte do corpo, mas nele como um todo; ela emprega todos os órgãos. Daí surge o hebraísmo: “todos os meus ossos te louvarão”. A natureza total da mente respira através de todo o corpo. Isso faz o homem diferir totalmente de qualquer outra criatura.

O Antigo Testamento faz referência a alma como uma parte particular do homem e às partes do corpo como membros em particular. Tiago diz que “o corpo sem o espírito está morto” (2.26), sugerindo que o corpo e o espírito são separáveis. Paulo diz o seguinte: “enquanto estamos presentes no corpo, estamos ausentes do Senhor… mas desejamos antes estar ausentes deste corpo, para estarmos presentes com o Senhor” (2 Co 5.6-8). Ele compara o corpo ao que é “exterior” e a alma e o espírito ao que é “interior” na seguinte passagem: “Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se consuma, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Co 4.16). O Apostolo Pedro também esclarece: “Contudo, considero fundamental, enquanto estiver no tabernáculo deste corpo, despertar a vossa memória, porquanto, estou consciente de que em breve deixarei este tabernáculo, como nosso Senhor Jesus Cristo já me revelou. Todavia, tenho me empenhado para que, mesmo depois da minha partida, vos lembreis com clareza desses ensinos em toda e qualquer situação” (2 Pe 1.13-15 – KJA). Cristo fez uma advertência de uma mesma maneira: E, não temais os que matam o corpo, mas não têm poder para matar a alma. Temei antes, aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo. (Mt 10.29). Em virtude destes e de outros textos semelhantes da Escritura, temos a prova de que o homem é uma unidade enquanto está “neste tabernáculo”, no corpo; porém, não tão unificado de modo que seus elementos essenciais não possam ser reconhecidos ou, em algumas circunstancias, serem separados.

O corpo sofreu o prejuízo da queda. Ele se tornou condenável a morte. O corpo originalmente criado possuía os mesmos órgãos vitais que o corpo que se mantém hoje, indicando que, o corpo original e não-caído era passível de morte. Essa morte não era inevitável, embora possível, porém, a sentença de morte, morte em todas as suas formas veio sobre o primeiro ser humano e, através dele, sobre o restante da raça humana (Rm 5.12) como punição pelo pecado. Este primeiro homem não estava sujeito a morte; contudo, seu pecado o fez ser uma criatura perecível. Por mais que a vida construa o corpo, a morte sempre a destrói, e mesmo aqueles que experimentarem o arrebatamento, a morte resolverá esse conflito, conforme o texto das escrituras diz: “Está ordenado aos homens morrerem um a só vez” (Hb 9.27).

1.1.2 O destino do corpo humano

 

            A palavra de Deus deixa bem claro que tanto o corpo dos não-salvos como o dos salvos ressurgirão dos mortos. A respeito disso, Jesus expressou as seguintes palavras: “Pois, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, igualmente outorgou ao Filho ter vida em si mesmo. E também lhe deu autoridade para executar julgamento, porque é o Filho do homem. Não vos admireis quanto a isso, pois está chegando a hora em que todos os que repousam nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida, e aqueles que tiverem praticado o mal, para a ressurreição da condenação (Jo 5.26-29)”. Essa universalidade da ressureição para todos os corpos dos seres humanos é encontrada em outra passagem: “Porquanto, assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. Contudo, cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; logo depois, os que são de sua propriedade na sua vinda. Então virá o fim, quando Ele entregar o Reino a Deus, o Pai, depois de ter destruído todo domínio, potestade e poder. Porque é necessário que Ele reine até que absolutamente todos os seus inimigos sejam prostrados debaixo de seus pés. E o último inimigo que será destruído é a Morte (1 Co 15.22-26)”. No contexto desse último texto, a exceção fica para aqueles santos que não “dormiram”; porém os corpos deles serão transformados. Quanto a isso, Paulo diz: “Eis que eu vos declaro um mistério: nem todos adormeceremos, mas certamente, todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Porquanto a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é impreterível que este corpo que perece se revista de incorruptibilidade, e o que é mortal, se revista de imortalidade (1 Co 15.51-53)”. Ainda sobre a universalidade, Paulo diz: “depositando em Deus a mesma esperança desses homens; de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos” (At 24.15).

            Um relato que descreve plenamente o caráter do corpo ressurreto dos salvos deve ser entendido por uma integração de todas as revelações proporcionadas pelo Novo Testamento a respeito do corpo ressurreto de Jesus Cristo: “No entanto, a nossa cidadania é dos céus, de onde aguardamos com grande expectativa o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nossos corpos humilhados, tornando-os semelhantes ao seu corpo glorioso, pelo poder que o capacita a colocar tudo o que existe debaixo do seu pleno domínio” (Fp 3.20-21). Esses detalhes são pertinentes ao corpo daqueles que, por serem salvos, ressuscitarão na vinda de Cristo (cf. 1 Co 15.23). No tocante a natureza do corpo ressurreto dos que não forem salvos em Cristo, no momento em que estiverem diante do grande trono branco (Ap 20.12), não há muito o que ser dito. A questão do tempo e espaço no tocante a ressurreição deles foi designado por Deus e não pode haver dúvidas quanto a isso.

            A forma como os mortos ressuscitarão e a qualidade do corpo que estes vêm questionado na carta paulina (1 Co 15.35), é respondida por Paulo em 1 Coríntios 15.36-44. Observamos neste texto que há quatro transformações impressionantes: a primeira, de corrupção à incorrupção; a segunda, de desonra à glória; a terceira, de fraqueza ao poder; e a quarta, do natural, ou o que é adaptado à alma, ao espiritual, ou do que é adaptado ao espírito. Aqui é possível ver a ideia da amplitude da mudança pelo qual o corpo do crente passará após haver passado pela morte. Neste capítulo temos duas palavras importantes com efeito suavizador – semear (v. 42) e dormir (v. 51). A palavra semear é usada em substituição a palavra mais conhecida, sepultar. A palavra sepultar não deixa esperança de ressurreição implícita como se sugere na palavra semear. Já a palavra dormir é um termo do Novo Testamento para dar significado a morte (Jo 11.11-14; 1 Co 11.30), sendo este um aspecto comum da morte que pertence ao crente, no qual seu corpo será despertado pela trombeta de Deus na vinda de Cristo (1 Co 15.52; 1 Ts 4.16). O tempo dessa ressureição conecta-se com a vinda de Cristo para receber os seus, aqueles que são salvos nesta era. A bíblia explica que em Adão todos morrem, mas que em Cristo todos são vivificados, e isso segue uma sequência, onde, Cristo foi as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda (1 Co 15.22,23).

            A exceção da universalidade da ressurreição dos mortos ocorre na afirmação “nem todos dormiremos” (1 Co 15.51), ou seja, nem todos os crentes experimentarão a morte. Isso nos mostra algo que ainda não fora revelado e que recebe o nome de “um mistério”, e que agora é revelado. Alguns estarão vivos e permanecerão até a vinda do Senhor Jesus (1 Ts 4.15-17); porém essas pessoas não poderão entrar no céu com esse corpo limitado. Então, ocorrerá que eles terão seus corpos mudados “num momento, num abrir e fechar de olhos” (1 Co 15.51,52). Aqui não é falado sobre mudança de residência, mas sim a mudança de natureza do corpo em si, pois, foi afirmado que nem carne e nem sangue podem herdar o reino de Deus “nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15.50). “A trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados” (v. 52). Essas promessas são dadas aqueles que foram salvos, despojando-se do velho homem e são revestidos do novo homem (Ef 4.22-24; Cl 3.9-10), e lhes é dito que serão revestidos de incorrupção e imortalidade; tudo o que implicar a corrupção e mortalidade será posto fora.

            Teologicamente, o uso da palavra imortalidade se refere a existência interminável da alma. No tocante ao termo mortalidade, este se refere totalmente ao físico e o seu oposto, imortalidade, também o é.

            Frequentemente a morte é apresentada na Bíblia como uma coisa que não é normal, um juízo sobre o homem por causa do pecado. Isso se deu em Adão como um resultado de sua desobediência, morrendo, tu morrerás (lit. Gn 2.17). Ele desobedeceu a Deus e a morte iminente veio como pena. As três formas de morte vieram a se tornar a paga na vida de todos por causa de Adão, são elas: morte física, morte espiritual e a segunda morte.

            A morte física é universal a todos, pois todos participam da morte imposta pelo pecado de Adão. A morte espiritual se deu no ato em que Adão transgrediu e, por uma mudança, tonou-se uma espécie diferente da que foi criada por Deus, tendo sua natureza caída, e sendo transmitida pela posteridade pelas leis da geração natural. A segunda morte é um resultado eterno da morte espiritual, sendo experimentada por todos os que não tem a fé em Cristo como Senhor e salvador (Ap 20.12-15).

            A promessa da derrota da morte física é o resultado da revogação da sentença do Éden, sendo este o ultimo inimigo a ser destruído.

1.1.3 Os usos da palavra corpo

            O Novo Testamento emprega o uso da palavra corpo em várias maneiras.

            Corpo do Pecado (Rm 6.6). A frase é empregada para descrever o “velho homem”, ou a natureza do pecado. Deve-se entender que o corpo expressa a vida do homem, com isso o poder do pecado para se expressar pode ser anulado por intermédio de um poder maio, a saber, o do Espírito Santo. Então, O Corpo do Pecado é o poder do pecado em se expressar.

            Corpo Desta Morte (Rm 7.24). Mais uma vez a natureza pecaminosa está em evidencia, ou o que está na carne, que está oposto a Deus. O contexto testemunha a luta de Paulo (Rm 7.15-25), está entre o eu salvo – hipoteticamente considerado – e a sua carne – eticamente considerada. Ele expressa um clamor pela libertação daquilo que ele faz comparação com um corpo mortal sempre presente. Paulo escreveu de si mesmo que esbofeteava o próprio corpo, de modo a fazê-lo sujeitar-se (1 Co 9.27), mas o corpo (físico) nada mais era do que um meio de atingir a apatia de sua alma.

            O Corpo da Nossa Humilhação (Fp 3.21). Existem versões americanas que não traduzem satisfatoriamente este texto. Essa tradução é a mais usada pelos exegetas, e mostram um corpo que não tem a glória que ainda haverá de ter.

1.1.4 Resumo

            Em se tratando de corpo humano, podemos concluir que ele é um produto oriundo do pó da terra; e sua sustentação vem dos elementos derivados do pó; ele retornará a esse pó. Sua condenação à morte é certa, devido à queda. Mas, está sujeito à ressureição ou transformação, e é tão eterno como a alma e o espírito do homem. Essa promessa de ressureição que torna a parte material eterna, juntamente com a parte imaterial, é que nos permite interpretar que o homem é uma unidade psicossomática, tendo em vista que as duas partes da unidade (material e imaterial) estarão juntas na eternidade, formando o homem.

  • A parte Imaterial do Homem
  • O primeiro homem e a origem de sua Parte Imaterial

O ponto mais importante sobre esta parte está declarado nas palavras que expressam que o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus, onde, essa semelhança é retratada no imaterial e não na parte física do homem. No tocante a parte imaterial, a bíblia nos diz que o homem tornou-se alma vivente em virtude do sopro divino naquele vaso de barro (Gn 2.7).

Estas afirmações estão além do nosso alcance, pois, diferentemente da parte material, o imaterial não originou-se de uma criação, mas uma transmissão. É evidenciado a nós que a “alma vivente” ao qual o homem se tornou por meio do sopro divino é mais uma ideia de algo “não criado” do que criado. Ela é uma comunicação do Eterno. Os anjos são seres criados (Cl 1.16) e são imateriais, e isso nos mostra em todos os seus aspectos, que são uma criação totalmente distinta da parte material preexistente. Não há registro escriturístico que nos informe que algum sopro os formou. O homem parece haver recebido um lugar de honra e dignidade insuperáveis, pois Deus o colocou para ser o senhor de uma pequena parcela do universo (vice-gerente).

A alma do homem e o espírito tem sua origem em Elohim, e o título Elohim sugere que as três pessoas da trindade compartilharam, sendo cada uma suficiente em si mesma, com intuito de assegurar a feitura dessa obra dos poderes criadores de Elohim.

  • Derivação e perpetuidade da parte imaterial

Deus em seu plano para a humanidade, gerou dois seres, a saber “macho e fêmea”, e estes deveriam frutificar, multiplicar e encher a terra (Gn 1.28). Fica implícito que Adão e Eva, e sua posteridade, receberam poder de procriação que geraria o corpo de sua descendência, mas também a responsabilidade direta pela existência imaterial deles. Isso porém, é uma teoria entre as três existentes, no tocante a parte imaterial de cada membro da raça adâmica.

  1. A teoria da Preexistência. Os defensores deste posicionamento acreditam que as almas dos seres humanos já existiam em algum estado anterior. A ideia é que Deus criou as almas e de alguma maneira as mantem guardadas até o momento em que Deus decide coloca-las em seus devidos corpos. O maior problema desse posicionamento é o fato de não haver uma boa base nas escrituras, e devido a isso, não foi muito adotada.
  2. A teoria do Criacionismo. Essa ideia defende que Deus é o criador direto de todas as almas. Os teóricos dessa tese afirmam que o homem é responsável pela criação da parte material de seus filhos, enquanto isso, Deus cria a alma e a põe no corpo. Não há como determinar a ocasião em que isso ocorre. Os defensores dessa teoria se baseiam em passagens como Ec 12.7; Is 42.5; Zc 12.1; Hb 12.9. O problema dessas passagens é que nenhuma delas explicita de maneira clara a criação direta da alma, mas sim, que Deus as dá. Essa teoria enfrenta um grande problema, como o fato de se explicar a seguinte pergunta: como um Deus santo pode gerar diretamente almas pecaminosas?
  3. A teoria do Traducianismo. Essa teoria diz que as almas humanas são geradas pelo processo de união do pai e da mãe de uma pessoa. Essa teoria tem como base de defesa os seguintes fatos:
  4. A bíblia não menciona a criação da alma de Eva, o que por sua vez, deduz-se que a mesma estaria incluída na de Adão. Isso implica dizer que Eva, além de receber o seu corpo recebeu também a sua alma.
  5. A bíblia afirma que Levi pagou o dízimo a Melquisedeque porque ele estava nos lombos do seu pai, Abraão (Hb 7.9,10); o que teoricamente deve ter incluído mais do que o corpo de Levi.
  6. Existem características mentais peculiares com os pais, que vão além da semelhança física, não sendo explicadas pela educação ou até mesmo o exemplo, tendo em vista que nem sempre os pais estão presentes na educação dos filhos, e mesmo assim, essas características semelhantes são manifestas.
  7. Essa teoria é a que melhor explica a questão da herança da depravação moral que é um assunto ligado a alma e não ao corpo. Os traducianistas dizem que a alma já existe na criança a partir da concepção, tendo em vista que é resultado da mesma. Essa teoria é a que aparece como sendo a que menos traz problemas quanto a origem da alma do homem.

 

  1. A FORMAÇÃO DO HOMEM DE ACORDO ALGUMAS SEITAS

            É interessante o modo como as seitas distorcem as escrituras no tocante a natureza do homem. Essas religiões e filosofias oferecem várias opções de respostas. Elas dividem a origem do homem em duas categorias: o ser pessoal tem uma origem pessoal, ou tem uma origem impessoal.

2.1 O Kardecismo

 

            Os Kardecistas entendem que as almas dos seres humanos são na verdade espíritos encarnados, isso implica que, não foram criadas no momento da concepção (Gn. 2.7), mas já existiam antes de chegarem a este mundo. A divindade que é responsável pela criação as criou, mas há uma possibilidade de que elas já existissem, tendo em vista que a atividade criativa dessa divindade é de caráter eterno.

            A hierarquia dos espíritos irá depender do estado de pureza que este alcançou. Essa distinção se dá por meio do mundo em que vivemos, onde a situação de cada pessoa que nasce será determinada pelo seu carma, ou seja, o bem ou mal que praticamos nas vidas passadas. Isso significa dizer que cada vida vivida, é na verdade uma forma de sofrer e expiar todo mal praticado em vidas anteriores, por meio sucessivas reencarnações, e com isso, cada indivíduo purifica-se e busca mais e mais a perfeição. O meio pelo qual esses espíritos podem obter o êxito dessa justiça social é por meio do livre arbítrio, onde, cada ser humano pode enfrentar e vencer seus desafios e chegar a um estado de perfeição, mesmo que isso requeira milhares de reencarnações, em muitos mundos. A vida no corpo não passa de uma parte desse processo de evolução. Os kardecistas veem o relato da criação como uma alegoria, pois o homem é fruto da evolução segundo eles relatam, e Adão não foi o primeiro homem. Essa afirmação sobre Adão expressa que não há uma unidade na raça humana decorrente de uma origem comum.

            O espiritismo também segue uma linha gnóstica desprezando a matéria física, tendo-a como uma forma de aprisionamento do espírito, e com isso, essa matéria possui caráter inferior.

2.2 O Naturalismo filosófico

            O naturalismo filosófico exclui qualquer realidade espiritual. Isso implica dizer que, o ser humano é composto apenas por uma parte material. Desde os tempos do filósofo grego Demócrito, até os dias de hoje, vários estudiosos tem sugerido que o homem é nada mais nada menos que um produto do acaso, num cosmos sem Deus. A teoria destes naturalistas afirma que não há vida após a morte.

2.3 O mormonismo

O mormonismo prega que os homens nasceram como almas durante uma vida anterior. A divindade mórmon teve muitas relações sexuais com suas muitas mulheres e com isso gerou muitos filhos espíritos. Para que esses espíritos se tomassem deuses, eles precisavam ter corpos físicos. Foi por esse motivo que a divindade organizou a terra e iniciou a raça humana.

            Segundo Joseph Smith, Deus tem um corpo de carne e osso, e com isso, a humanidade herdou a imagem Deus, e isso se deu fisicamente também. Segundo ele, o homem não foi criado do nada, pois, o homem surgiu de uma inteligência que existia na eternidade, mas que não era uma entidade pessoal, e sim uma entidade em potencial. Os mórmons também acreditam que cada vez que um bebê nasce na terra um espírito se encarna nele.

A forma de nascimento irá depender de como foi o valor do espírito em sua existência anterior.

  1. DICOTOMIA E TRICOTOMIA

3.1 Dicotomia

            Essa teoria mostra a formação do homem com uma natureza dupla: um lado é composto pela parte material, e o outro lado é composto pela parte imaterial. Ele é corpo e espírito, ou alma. Segundo os Dicotomistas a consciência testifica que há dois e só dois elementos no homem, e afirmam também que a Escritura confirma e testemunha que essa representação prevalece.

            Os Dicotomistas usam alguns argumentos para isso:

  1. a) o registro da criação do homem (Gn. 2.7) – o sopro divino do Espírito fez o corpo sem vida tornar-se possuído e vitalizado por um princípio apenas: a alma vivente.

“Gênesis 2:7 – E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”; cf. Jó 27.3, que diz: “que, enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus nas minhas narinas”; com 32.8, que diz: “na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido”; e com 33.4, que diz: “o Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida”.

  1. b) trechos das Escrituras em que a alma humana, ou espírito, se diferencia tanto do Espírito Divino de que procede como do corpo em que habita.

Nm. 16.22 – “Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne”; Zc. 12.1 – “Senhor… que forma o espírito do homem dentro dele”; 1 Co. 2.11 – “o espírito do homem que nele está … o Espírito de Deus”; Hb. 12.9 – “ao Pai dos espíritos”. As passagens já mencionadas distinguem o espírito do homem do Espírito de Deus. As passagens seguintes distinguem a alma, ou espírito humano do corpo em que habita: Gn. 35.18 – “E aconteceu que, saindo-lhe a alma (porque morreu)”; 1 Re. 17.21 – “Ó Senhor, meu Deus, rogo-te que torne a alma deste menino a entrar nele”; Ec. 12.7 – “o pó volte à terra como era, e o espírito volte a Deus, que o deu”; Tg. 2.26 – “O corpo sem o espírito está morto”. O primeiro grupo de passagens refuta o panteísmo; o segundo refuta o materialismo.

  1. c) o uso substituível dos termos ‘alma’ e ‘espírito’

Gn. 41.8 – “o seu espírito perturbou-se”; cf. SI. 42.6 – “dentro de mim a minha alma está abatida”. Jo. 12.27 – “Agora a minha alma está perturbada”; cf. 13.21 “turbou-se o seu espírito”. Mt. 20.28 – “dar a sua vida em resgate de muitos”; cf. 27.50 – “entregou o seu espírito”. Hb. 12.23 – “aos espíritos dos justos aperfeiçoados”; cf. Ap. 6.9 – “vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus”. Nestas passagens, parece que “espírito” e “alma” são empregados em intercâmbio uma com a outra.

  1. d) argumentos que usam menção de corpo e alma (ou espírito) constituindo juntos o homem como um todo.

Mt. 10.28 – “perecer no inferno tanto a alma como o corpo”; 1 Co. 5.3 – “ausente no corpo, mas presente no espírito”; 3 Jo. 2 – “desejo que te vá bem e que tenhas saúde assim como vai bem a tua alma”. Estes textos implicam que o corpo e a alma (ou espírito) constituem o homem todo.

3.2 Tricotomia

            Essa é uma concepção bem conhecida no meio protestante, no meio daqueles que são mais conservadores. Nessa concepção os seres humanos são compostos de três elementos. O primeiro elemento a ser descrito é o corpo físico, ou seja, um elemento que temos em comum com os demais seres vivos (animais e plantas). O homem possui uma estrutura de composição mais complexa. A segunda parte dessa composição é a alma. Este elemento é a parte psicológica (gr. Psyche), a base da razão, da emoção e das relações sociais. A distinção dos homens para os animais e as plantas não seria a posse de uma alma mais complexa, mais desenvolvida, mas, o fato de termos o terceiro elemento, a saber, um “espírito”. Esse espírito é o responsável por permitir que o homem perceba as coisas espirituais e reagir aos estímulos espirituais. As qualidades espirituais estão no Espírito e as personalidades do homem residem em sua alma.

            Os Tricotomistas criaram uma hierarquia, onde o Espírito está numa posição mais alta, em segundo lugar vem a alma que tem o intelecto, as emoções e as vontades, e por último, o corpo físico. Um os autores mais famosos desta doutrina é o Pastor chinês Watchman Nee.

            Boa parte do tricotomismo depende da metafísica grega antiga. Mas, o que fundamenta de maneira mais importante o tricotomismo são algumas passagens que enumeram os três componentes da natureza humana, ou distinguem a alma e espírito.

            Um exemplo básico é a passagem de I Tessalonicenses 5:23 – E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo; cf. Hebreus 4:12 – Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.

                Uma trifurcação parece estar implícita em ICoríntios 2.14—3.4, onde Paulo classifica as pessoas humanas em “carnais” (sarkikos), “naturais” (psychikos —lit. “da alma”) ou “espirituais” (pneumatíkos). Esses termos parecem fazer referência a diferentes funções ou orientações, se não a componentes diferentes dos seres humanos. (Erickson, p. 228).

            Os pais alexandrinos foi particularmente bem difundido entre os pais alexandrinos dos primeiros séculos da Igreja. Por mais que haja algumas variações, o tricotomismo é encontrado em Clemente de Alexandria, Orígenes e Gregório de Nissa. Essa ideia perdeu seu crédito após Apolinário utilizá-la na formação de sua Cristologia, onde esta foi considerada herética pela igreja.

Apesar de alguns dos pais orientais a terem mantido, o conceito sofreu um declínio geral quanto à popularidade, até ser reavivado no século XIX, por teólogos ingleses e alemães. (Erickson, p. 228).

  1. PESSOA TOTAL (UNIDADE PISICOSSOMÁTICA)

            Como vimos anteriormente, tanto o pensamento “Dicotomista” como o “Tricotomista” concordam que os seres humanos são complexos, e que sua formação é composta por partes que podem sofrer separação. Porém, abordaremos uma concepção em que os homens são indivisíveis. A visão da “Pessoa Total” mostra que o homem não pode ser dividido, mas, visto como unidade psicossomática. O homem não é visto como corpo, alma e espírito, mas sim como pessoa. Os termos que são usados comumente para distinguir as partes da natureza humana, na verdade, devem ser compreendidos como sinônimos.

            A bíblia não faz uso de alguma linguagem cientifica precisa. Sendo assim, os termos alma, espírito e coração são usados mais ou menos intercambiavelmente. Isso se dá devido não ser possível construir uma psicologia bíblica precisa, científica. Porém, a partir da palavra de Deus é possível aprender muitas verdades importantes no tocante ao homem. Não vemos nas escrituras um interesse primário nas partes que constituem o homem ou a sua estrutura psicológica, e sim, nos relacionamentos em que este se encontra.

            A melhor metodologia a ser adotada para identificarmos a concepção bíblica do homem como uma pessoa integral é observando os termos empregados para descrever os vários aspectos do homem. Veremos os termos do Antigo testamento e, depois, os do Novo Testamento em relação ao homem como pessoa total.

4.1 Termos do Antigo Testamento

            A primeira palavra a ser abordada é a palavra hebraica nephesh, comumente traduzida como “alma”. O dicionário hebraico bíblico de Brown, Driver e Briggs expõe dez significados para a palavra em questão, nas quais temos como mais importantes para o nosso propósito os que seguem: “a existência interior do homem”, “o ser vivo” (empregado igualmente para animais e homens), “o próprio homem” (comumente empregado como um pronome pessoal: eu mesmo, ele mesmo, etc.; podendo significar nesse sentido o ser humano integralmente), “sede dos apetites”, “sede das emoções”. Em alguns momentos, este termo pode, fazer referência a uma pessoa falecida, com ou sem meth (“morta”). Comenta-se inclusive que a nephesh morre. Fica claro que a palavra nephesh possivelmente significa a pessoa inteira.

            A próxima palavra a ser abordada é ruach, geralmente traduzida por “espírito”. Seu significado semântico é “ar em movimento”; é comumente empregada para descrever o vento. O dicionário hebraico bíblico de Brown, Driver e Briggs expõe dez significados, o que inclui os seguintes: “espírito”, “animação”, “disposição”, “fôlego dos seres vivos, que respiram, presente na carne de homens e animais” (um exemplo do último: Ec 3.21), “sede das emoções”, “órgãos dos atos mentais”, “órgão da vontade”. Segundo W. D. Stacey, o significado de ruach sobrepõe-se ao de nephesh, em relação a isso, ele diz:

Quando se faz referência ao homem em sua relação com Deus, ruach é o termo que, mais provavelmente, será usado…, mas quando se faz referência ao homem em relação a outros homens, ou o homem vivendo em vida comum dos homens, então nephesh é mais provável, se um termo psíquico é exigido. Tanto um como o outro caso envolve o homem todo. (The Pauline View of Man – London: Macmillan, 1956, p. 90)

            Por isso, não se deve tratar ruach como sendo algum aspecto separado do homem, mas sim, como uma pessoa vista por inteiro de uma certa perspectiva.

            As palavras seguintes, são comumente empregadas para traduzir as palavras do Antigo Testamento como “coração”: lebh e lebhabh. Mais uma vez, Brown-Driver-Briggs traz dez significados para estas duas palavras, dentre as quais as seguintes: “o homem interior ou a alma”, “mente”, “resoluções da vontade”, “consciência”, “caráter moral”, “o próprio homem”, “a sede dos apetites”, “a sede das emoções”, “a sede da coragem”. Segundo F. H. Von Meyenfeldt, em seu estudo definitivo do termo, lebh ou lebhabh representa de modo geral a pessoa total em possui significado predominantemente religioso.

            O termo “coração é usado no Antigo Testamento, para descrever a sede do pensamento, do sentimento e da vontade; também a sede do pecado (Gn. 6.5; Sl 95.8,10; Jr 17.9), a sede da renovação espiritual (Dt 30.6; Sl 51.10; Jr 31.33; Ez 36.26), e a sede da fé (Sl 28.7; 112.7; Pv 3.5).

            A palavra coração significa o homem no centro mais secreto de sua existência, e como ele é nas profundezas do seu ser. Segundo filósofo Holandês Herman Dooyeweerd, na Escritura, coração é “a origem religiosa da existência inteira do homem”; ele enfatiza em sua filosofia que o coração é o centro e a fonte de toda atividade religiosa, filosófica e moral do homem.

            A palavra seguinte que abordaremos é basar, que é comumente traduzida por “carne”. Brown-Driver-Briggs mostra seis significados, o que inclui os seguintes: “carne” (o corpo), “parentes consanguíneos”, “homem, em contraposição a Deus”, “raça humana”. Isso nos mostra uma que no Antigo Testamento o termo basar é mais utilizado para designar “o aspecto exterior e carnal da natureza humana”. Vemos aqui uma distinção da palavra nephesh, que está mais ligada ao aspecto interior do homem, e deste modo, tanto basar como nephesh, não devem ser interpretadas no sentido de um dualismo entre alma e corpo no sentido platônico.

            Jeremias 17.5 diz, “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço”. Aqui o termo basar aparece mostrando a vida do homem como débil e fraca. Portanto basar pode denotar a pessoa toda, embora sua ênfase seja no lado exterior.

            Sendo assim, conclui-se que os termos nephesh, ruach, lebh e basar, mostram apenas aspectos diferentes da pessoa total.

4.2 Termos do Novo Testamento

            A primeira palavra a ser abordada em questão é psyche, que é uma palavra grega que equivale a nephesh, que na maioria dos casos é traduzida como “alma”. O léxico do Novo Testamento Grego de Arndt-Gingrich lista alguns significados para este termo: “princípio de vida”, “a vida terrena”, “sede da vida interior do homem” (abarcando sentimentos e emoções), “a sede e o centro da vida que transcende o que é terreno”, “o que tem vida: uma criatura viva” (no plural, pessoas).

            A palavra pneuma, que é equivalente neotestamentário a ruach que, quando refere-se ao homem, é geralmente traduzido como “espírito”. O léxico do Novo Testamento Grego de Arndt-Gingrich lista alguns significados para este termo: “o espírito como parte da personalidade humana”, “o eu ou ego de uma pessoa”, “uma disposição ou estado de mente”.

            George Ladd, em uma discussão a respeito da psicologia paulina, menciona que, no pensamento de Paulo, o homem serve a Deus com o espírito e experimenta renovação no espírito. Paulo algumas vezes contrasta pneuma com o corpo como a dimensão interior em contraste com o exterior do homem (2 Co 7.1; Rm 8.10). Pneuma pode também descrever o autoconhecimento ou autoconsciência do homem (1 Co 2.111).

            Em Hebreus 12.23, há uma descrição dos santos mortos como “os espíritos dos justos aperfeiçoados”, o que indica que pneuma pode designar vida após a morte. Cristo em Lc 23.46 e Estevão em At 7.59, ao morrer, encomendam seus espíritos a Deus o Pai ou a Deus o Filho, respectivamente. Também há uma afirmação na passagem de 1Pe 3.19, onde Cristo pregou aos “espíritos em prisão”, referindo-se a pessoas falecidas.

            Portanto, Pneuma, é empregada em sua maioria como sinônimo de psyche, e várias vezes usadas sem distinção no Novo Testamento. Ladd faz uma distinção da seguinte maneira: ele diz que “Espírito é usada com mais frequência referindo-se a Deus”; já alma nunca é usada dessa maneira. Indica-se portanto que pneuma representa o homem no tocante a sua orientação a Deus, já psyche representa a pessoa em seu aspecto humano. Há exceções para essa explicação de Ladd. Em Lc 1.46, a psyche, como em alguns casos, é descrita como louvando e magnificando ao Senhor; Tiago diz que a palavra implantada em nós é capaz de salvar as nossas almas (psychas, Tg 1.21). Pneuma, pode designar uma pessoa total; e psyche, descreve um aspecto da pessoa em sua totalidade.

            A palavra seguinte em nossa análise é kardia, uma palavra que equivale a lebh e lebhabh, traduzida comumente como “coração”. Arndt-Gingrich indica o sentido principal para o termo: “a sede da vida física, espiritual e mental”. Também é descrito como centro e a fonte de toda a vida interior do homem, como seu pensamento, sentimento e volição. O coração também é visto como sendo o lugar da habitação do Espírito Santo. O coração é o centro da vida interior de uma pessoa: de seus sentimentos, entendimento e vontade, ou seja, todo o ser interior do homem.

            Kardia também é empregado para indicar o coração como a sede do pecado, a sede da renovação espiritual e a sede da fé. Algumas virtudes cristãs também podem ser observadas como kardia (2 Ts 3.5; 1 Pe 1.22). A obediência é associada ao coração (Rm 6.17; Cl 3.22). O perdão é associado ao coração (Mt 11.29). É descrito como a sede da pureza (Mt 5.8; Tg 4.8). A gratidão é associada ao coração (Cl 3.16). A paz guarda o coração (Fp 4.7).

Kardia, então, está ligada a pessoa total em sua essência interior.

A próxima palavra é corpo, onde no hebraico temos a palavra basar, porém, no grego do Novo Testamento, há duas palavras empregadas para corpo: sarx e soma. Arndt-Gingrich lista alguns significados para este termo: “corpo”, “um ser humano”, “natureza humana”, “limitação física”, “o aspecto exterior da vida”, e “o instrumento condescendente do pecado” (em particular nos escritos paulinos).

No Novo Testamento, a palavra sarx possui dois significados principais: o aspecto exterior (físico – homem como todo), e carne (tendência interior do homem decaído para desobedecer a Deus em todas as áreas da vida). Nas epistolas paulinas, não se deve restringir o termo sarx apenas como referência ao que chamamos de “pecados da carne” (do corpo); mas, entende-lo como pecados cometidos pela pessoa toda. Na lista de Gálatas 5.19-21, somente cinco dentre os quinze são pecados do corpo; o restante são os denominados “pecados do espírito” – como ódio, discórdia, ciúme, etc.. Sendo assim, a palavra sarx é usada no segundo sentido, ela abrange a pessoa toda e não somente uma parte dela.

Já no que tange ao termo soma, traduzido como “corpo”. Arndt-Gingrich lista os seguintes significados para este termo: “o corpo vivo”, “o corpo da ressureição”, e “a comunidade cristã ou igreja”. Clarence B. Bass em um artigo sobre o corpo na Escritura, traz mais cinco definições: “a pessoa inteira como uma entidade diante de Deus”, “a sede espiritual no homem”, “o homem na qualidade de destinado à filiação no reino de Deus”, “o veículo para a ressureição”, e “o lugar do teste espiritual em cujos termos o julgamento acontecerá”.

Em resumo, as palavra do Novo Testamento aqui explanadas, descrevem o homem como um ser unitário. Ele possui aspecto físico, e aspecto mental ou espiritual, mas não se deve separar esses dois. A pessoa deve ser vista em sua totalidade, não como combinação de partes distintas. Essa conclusão é evidente tanto no Antigo como no Novo Testamento.

4.3 Unidade Psicossomática

            Mesmo o homem sendo visto biblicamente como um todo, ele possui dois aspectos: o físico e o não-físico. Significando que ele possui um corpo físico, e uma personalidade. Ele possui uma mente pensante, mas também um cérebro que faz parte do seu corpo, no qual sem ele não pode pensar. Em dado momento quando as coisas não vão bem, ele pode necessitar de uma intervenção cirúrgica, já em outros casos, ele pode precisar apenas de aconselhamento. O homem é uma pessoa que pode ser vista por dois aspectos.

            Definiremos o homem como unidade psicossomática, fazendo jus aos dois aspectos do homem, ao passo que enfatiza a unidade do homem.

            Uma ilustração pode ser dada ao verificarmos o relacionamento entre a mente e o cérebro. Donald M. MacKay, reconhecendo que se deve ver o homem como uma unidade, disse:

Nós não precisamos imaginar a “mente” e o “cérebro” como duas espécies de “substancias” interativas. Não precisamos conceber os eventos mentais e os eventos cerebrais como dois conjuntos distintos de eventos… Parece-me suficiente, ao ivés disso, descrever os eventos mentais e seus eventos cerebrais correlatos como os aspectos “interiores” e “exteriores” de uma única sequencia de eventos, que em sua pelna natureza são mais ricos – há mais neles – do que pode ser expresso em uma só categoria, mental ou física.

Nós estamos considerando ambos [minha experiência consciente e o funcionamento de meu cérebro] como dois aspectos igualmente reais de uma só unidade misteriosa. O observador externo vê um aspecto, o de um padrão físico de atividade cerebral. O próprio agente conhece um outro aspecto, o de sua experiência consciente… O que estamos dizendo é que esses aspectos são complementares.

            O homem, nessa situação, existe num estado de unidade psicossomática. Fomos criados dessa forma, somos dessa forma agora e continuaremos assim após a ressureição do corpo. Consideremos que a redenção plena inclui a redenção do corpo (Rm 8.23; 1 Co 15.12-57), tendo em vista que o homem não pode ser completo sem seu corpo. O futuro em glória que está reservado para os seres humanos em Cristo inclui a ressureição do corpo e uma nova terra purificada, aperfeiçoada.

4.4 A pessoa no Estado Intermediário

            Aqui nos deparamos com o período entre a morte e a ressureição. E, tendo em vista que não se pode ser completo sem um corpo, o que acontece com a pessoa nesse estágio?

            Ideias como defendidas pelos Testemunhas de Jeová e pelos Adventistas do Sétimo Dia, de que o homem deixa de existir entre a morte e a ressureição, são anti-bíblicas. Outra ideia que surge, é de que essas pessoas recebem um corpo intermediário, porém, não há base bíblica que sustente essa ideia. O contraste no Novo Testamento é sempre entre o corpo presente e o corpo ressuscitado (cf. Fp 3.21; 1 Co 15.42-44).

            A outra ideia que surge, é a que versa sobre o sono da alma. Isso implica que o homem, ou sua “alma”, existe num estado inconsciente entre a morte e a ressureição. Vários grupos cristão sustentam essa ideia.

            Herman Dooyeweerd, ao rejeitar a dicotomia alma-corpo, afirma um novo entendimento dos dois aspectos do homem: coração e “capa-de-função”, sendo que esse último termo se refere ao corpo, o qual é a totalidade de sua existência temporal e a estrutura inteira de todas as suas funções temporais. Não se deve distinguir coração e capa-de-função como sendo duas substancias diferentes dentro do ser humano, mas, ao invés disso, como descrições do homem em sua totalidade unitária.

            Quando perguntaram a Herman Dooyeweerd: que tipo de funções ainda podem ser deixadas para a alma quando ela for separada de sua conjunção temporal com as funções pré-psíquicas (ou seja, após a morte), ele respondeu: “Nada”.

Dooyeweerd não negou a existência contínua da alma após a morte, também não descreveu o estado da alma sem o corpo como um estado de inconsciência. Porém, por privar a alma de suas funções temporais, ele parece deixar apenas o mais irreal dos fantasmas no lugar das almas racionais separadas dos seus corpos.

Quando Herman Dooyeweerd estava pronunciando o seu “nada”, estava respondendo a uma pergunta sobre uma concepção acerca do homem que ele próprio não subscrevia: a de que o homem possui duas partes separadas, um corpo mortal inferior e uma alma racional superior, indestrutível e imortal – o ensino dos antigos filósofos gregos. Não é justo com Herman Dooyeweerd, aplicar suas palavras à sua própria compreensão no tocante ao estado intermediário. Porém essa afirmação embaraçosa levou muitos a questionar a ideia de Dooyeweerd no que tange o estado intermediário dos crentes entre a morte e a ressureição.

A bíblia nos mostra como ensino central, que o futuro do homem é a doutrina da ressureição do corpo. O Novo Testamento indica que os crentres, quando estiverem no estado intermediário, estarão em um estado de alegria provisória, o qual é “incomparavelmente melhor” do que o panorama atual aqui na terra (Fp 1.23). Isso nos mostra que os crentes durante o estado intermediário não poderão estar num estado de não-existência ou de inconsciência.

A respeito desse estado de alegria provisória (no estágio intermediário), o Novo Testamento diz o seguinte:

Filipenses 1:22-23 – Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.

Lucas 23:43 – E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.

II Corintios 5:6-8 Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (Porque andamos por fé, e não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.

            No trecho mencionado de Filipenses, vemos Paulo fazer a comparação de que “estar com Cristo” é melhor do que “viver na carne”, o que indica que é possível não viver no “presente corpo” e, portanto, “estar com Cristo” – um estado que é bem melhor que o presente estado. O que é importante na passagem de 2 Coríntios é o fato de Paulo contrapor “enquanto [estamos] no corpo”; a “deixar o corpo”. Paulo poderia definir a bem aventurança do crente após a ressureição como “ausentes deste corpo”, deixando bem entendido que os crentes habitariam em um novo corpo. Mas, ao invés disso, ele escreve simplesmente “ausentes do corpo”, deixando evidente aos leitores que está se referindo a uma existência entre o corpo presente e o corpo da ressureição. Veja que Paulo afirma ser possível aos cristãos estarem com Cristo mesmo quando não estiverem mais habitando em seus corpos presentes e ainda não tiverem recebido seus corpos gloriosos (ressuscitados).

            Outros momentos, todavia, o Novo Testamento faz uso das palavras “alma” (psyche) ou “espírito” (pneuma) para fazer referência aos crentes em sua existência entre a morte e ressureição.

A palavra “alma” é usada nas seguintes passagens bíblicas:

Mateus 10:28 – E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.

Apocalipse 6:9 – E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram.

            A palavra “espírito” é usada nas seguintes passagens:

Hebreus 12:22-23 – Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados.

I Pedro 3:18-20 – Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água.

            Vemos que, em dados momentos, o Novo Testamento diz que os crentes, continuam sua existência num estado provisório de alegria entre a morte e a ressureição, ao passo que em outros momentos ele diz que as “almas” ou “espíritos” desses crentes ainda existirão no período daquele estado. A palavra de Deus, porém, não faz uso de palavras como “alma” ou “espírito” na mesma forma que nós o fazemos; dessa forma, esses textos resumidamente querem nos dizer que as pessoas continuarão sua existência entre a morte e a ressureição (estado intermediário), enquanto estão aguardando a ressureição do corpo. Não há descrições antropológicas na bíblia sobre a vida nesse estado intermediário. Podemos apenas especular sobre o assunto, mas não é possível formar uma ideia esclarecedora sobre a vida nesse estado intermediário (entre a morte e ressureição).

            A passagem de 2 Coríntios 5.8 nos ensina que essa unidade psicossomática poderá ser interrompida temporariamente no momento da morte, ou seja, é possível aos seres humanos existirem à parte de seus corpos presentes. Há mais passagens no Novo Testamento que registram isso:

I Tessalonicenses 3:13 – Para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo com todos os seus santos.

I Tessalonicenses 4:14 – Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele.

            Os textos estão se referindo aos “santos” e aos que “já dormem”, mostrando a existência destes após a morte e antes da ressureição. Podemos observar que a ressureição dos que já dormiram em Cristo é posteriormente mencionada em I Ts 4.16. Observa-se também no mesmo versículo que “mediante Cristo, os que morreram serão ressuscitados” – deixando evidente que os que morreram estão em algum estado de existência até a ressureição.

            A unidade psicossomática é o estado normal do ser humano. Quando ocorrer a ressureição, este ser humano sofrerá uma plena restauração dessa unidade e se tornará completo novamente. Mas, precisamos observar que a bíblia ensina que há uma existência temporária, em estado provisório de alegria separados de seus corpos atuais durante o estado intermediário. Esse estado, porém, é incompleto e provisório. O clímax do programa do plano de Redenção de Deus que foi feito na eternidade é a espera da ressureição do corpo e a nova terra.

4.5 As Implicações Práticas da Unidade Psicossomática

            Compreender o ser humano como sendo uma pessoa indivisa, como foi apresentado nesse trabalho, possui implicações práticas muito importantes.

            A primeira implicação é que a igreja deve preocupar-se com a pessoa integral. A igreja não deve apenas dirigir-se somente ao intelecto dos seus ouvintes, mas também ao seu sentimento e vontade. O coração desse ouvinte deve ser motivado a louvar a Deus. As aulas dominicais não devem apenas passar conhecimento decorado, mas, envolver todos os aspectos da pessoa. Os programas para jovens deve envolver o também o corpo, como por exemplo, promovendo esportes e atividades externas.

            As atividades missionárias da igreja devem ir além do confronto da palavra, mas deve atentar também para as necessidades físicas das pessoas.

            A escola deve ir além da instrução intelectual, pois estamos vendo as pessoas como indivisas. Então, deve haver um direcionamento também às emoções e vontades, pois o ensino eficaz deve produzir, no aluno, amor pela matéria e desejo de aprender mais dela.

            Outra implicação é no tocante a vida em família. Os filhos devem ser ensinados a respeito de Deus, e educados para terem uma vida cristã, e quando errarem, serem disciplinados em amor. Mas, os pais devem atentar para a saúde do corpo dos filhos, atentando para a dieta e cuidado correto do corpo. Os pais devem ensinar os filhos a cuidarem do corpo, não apenas com ordens, mas sendo exemplos também.

            Na psicologia e o aconselhamento. Estudos atuais mostram que a psicologia tem colocado uma nova ênfase na totalidade do homem – uma ênfase que é chamada, algumas vezes, de “teoria organísmica”. Essa visão é uma reação contra o dualismo mente-corpo. Os conselheiros devem atentar para o fato de que o homem é uma pessoa indivisa, sendo capazes de reconhecer os problemas que requerem o conhecimento especializado de outros além do seu próprio e devem dispor-se a encaminhar seus aconselhados, quando lhe for necessário, a médicos e psiquiatras. Um exemplo, são os problemas mentais, que não devem ser vistos como totalmente distintos dos problemas físicos, porque nenhum problema está desassociado do outro. Haja visto que drogas antidepressivas podem curar certas depressões, e um conselheiro dotado de sabedoria irá fazer uso desses meios. Pessoas que graves problemas terão uma cura mais eficaz se houver esforço conjunto de uma equipe terapêutica, contendo, talvez, um psicólogo, um assistente social, um médico e um psiquiatra.

            A saúde mental e espiritual não devem ser entendidas como totalmente separadas. Pois, o homem é uma pessoa indivisa, onde o espiritual e mental são aspectos de sua totalidade, de maneira que cada aspecto será influenciado pelo outro.

            Nem sempre as citações bíblicas de um conselheiro espiritual será tudo o que o membro da igreja precisa para resolver um problema espiritual difícil. O conselheiro deve ver os problemas da pessoa toda. Tratando-o como uma pessoa indivisa e tentando restaurá-lo ao todo, o que é a marca de uma vida saudável e piedosa.

Podemos citar, por exemplo, um paciente com síndrome do pânico que é um transtorno de ansiedade. O conselheiro cristão deve orientar o membro de sua igreja através de passagens bíblicas e bons conselhos, mas também, deve orientar este membro a procurar ajuda médica, pois, esta síndrome ocorre devido a problemas na produção de neurotransmissores que são responsáveis pela comunicação que ocorre entre os neurônios, causando desequilíbrio e levando partes do cérebro a transmitir informações e comandos incorretos – e isso é o que acarreta a crise de pânico; com isso, o membro bem aconselhado procurará essa ajuda médica para se tratar através de medicamentos e psicoterapias que o ajudarão a estabilizar esses neurotransmissores, levando-o novamente a uma vida saudável.

CONCLUSÃO

            Os termos hebraicos e gregos que traduzem de maneira geral “corpo”, “alma” e “espírito”, indicam mais a figura do ser humano como pessoa total, do que para suas partes. Deve-se tomar cuidado com a dicotomia gnóstica entre matéria e espírito, e, doutro modo, dar ênfase a salvação integral do ser humano como um todo, e isso inclui o corpo. Os teólogos reformados preferem abordar a unidade psicossomática do homem, do que dicotomia ou tricotomia.

            Essa expressão reformada reconhece a dupla distinção essencial da natureza humana (corpo e alma), porém, enfatizando a unidade orgânica como o ser humano é visto biblicamente.

            Os termos que traduzem “alma” e “espírito” utilizados tanto no Antigo como no Novo Testamento, indicam que se tratam de palavras sinônimas em seus empregos, apontando para aspectos ou faculdades específicos nos quais o ser humano é considerado, e não para elementos essenciais distintos que comporiam a natureza humana.

NOTAS:

[1] McGrath, Alister E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2010.

[2] Erickson, Millard J. Introdução a Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1992.

[3] Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 1990.

[4] Ferreira, Franklin e Myatt, Alan. Teologia Sistemática. Uma análise Histórica, Bíblica e Apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

[5] Chafer, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003.

[6] Anglada, Paulo. Imago Dei. Antropologia Reformada. Pará: Knox Publicações, 2013.

[7] Hoekema, Anthony. Criados à Imagem de Deus. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 1999.

[8] http://www.monergismo.com/textos/antropologia_biblica/antropo1_heber.htm <acesso em: 21 de dezembro de 2017>

[9] Cheung, Vincent. Teologia Sistemática. Boston: Reformation Ministries International, 2001.

*** Pesquisas na internet sobre evolucionismo não foram citadas nestas referencias.

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